Seca severa e ação humana: Estudo revela mudanças profundas na química do Rio Paraíba do Sul

Um estudo de longo prazo, realizado ao longo de 11 anos (2009-2019), revelou como a seca extrema de 2014 e as atividades antrópicas alteraram drasticamente a composição química e a saúde do Rio Paraíba do Sul (RPS), um dos cursos de água mais importantes do Sudeste brasileiro. A investigação, conduzida por pesquisadores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), destaca que a combinação de fenômenos climáticos e a gestão deficiente de recursos hídricos ameaça a disponibilidade de água para milhões de pessoas.

 

A pior seca em quase um século

O Sudeste do Brasil enfrentou entre 2014 e 2015 uma das secas mais graves dos últimos 85 anos. O estudo mostra que, antes deste evento (2009-2013), a vazão do rio na sua foz, chegava a atingir 4.546 m³/s; após o início da seca de 2014-215, o volume caiu drasticamente, registando mínimos de apenas 31 m³/s.

Esta redução no volume de água não foi apenas uma questão de quantidade, mas alterou fundamentalmente a hidroquímica do rio. Os resultados indicam que, com menos água para diluir os poluentes, as concentrações de substâncias como cloretos e fosfatos aumentaram significativamente a partir de 2014.

 

O impacto invisível: Poluição e Agricultura

O rio atua como um “termômetro” da bacia, integrando tudo o que acontece nos ecossistemas terrestres e urbanos. A análise revelou que o uso intensivo do solo para pastagens (que ocupam 79% da sub-bacia do Baixo Paraíba) e a agricultura de cana-de-açúcar contribuem para a entrada de sedimentos e minerais no rio.

Um dado alarmante apontado pelos cientistas é o impacto do esgoto doméstico não tratado. Embora a população da região tenha crescido, apenas uma pequena parte do esgoto recebe tratamento adequado. Durante a seca, a falta de diluição intensificou os processos de nitrificação e a presença de nutrientes, o que pode favorecer a proliferação de algas e a redução dos níveis de oxigênio na água.

 

El Niño, La Niña e o futuro das águas

A investigação também estabeleceu uma ligação direta entre o Índice de Oscilação do Sul (SOI) — que mede os fenômenos El Niño e La Niña — e a dinâmica do rio. O estudo confirmou que estes eventos climáticos globais afetam o transporte de materiais e a qualidade da água. “Os resultados reforçam que o aumento da frequência e intensidade dos fenômenos climáticos afetará os padrões de transporte de nutrientes”, afirmam os autores. Além do clima, a existência de 83 reservatórios e barragens hidroelétricas ao longo da bacia agrava a situação, ao regular o fluxo de forma artificial e reduzir ainda mais a vazão média em períodos críticos.

 

Necessidade de políticas públicas

Para os especialistas, este estudo de longo prazo é crucial para compreender os impactos ambientais e fornecer dados valiosos para a formulação de políticas públicas de adaptação e mitigação. Num cenário de alterações climáticas crescentes, compreender como o rio reage a eventos extremos é o primeiro passo para garantir a segurança hídrica das mais de 22 milhões de pessoas que dependem das suas águas. 

 

Referência

SOUZA, Letícia M. E. de et al. Long-Term Variation of Hydrochemical Parameters in a Medium-Sized Tropical River: Effects of a Severe Drought. Journal of the Brazilian Chemical Society, v. 37, e-20260033, p. 1-11, 2026. Disponível em: https://dx.doi.org/10.21577/0103-5053.20260033.

Translate »